Primeiro fígado e rins de porco são transplantados em humano ao mesmo tempo

Um homem clinicamente morto recebeu dois rins e um fígado inteiros de um porco geneticamente modificado. Por quase cinco dias, os médicos acompanharam de hora em hora o que o corpo faria.
Dois porcos olhando por cima de uma cerca de madeira, ilustrando o transplante de órgãos de porco para humanos.

Um homem recebeu dois rins e um fígado inteiros de um porco. E, por quase um dia inteiro, o corpo dele tratou aqueles órgãos de porco como se sempre tivessem estado ali.

Dois porcos olhando por cima de uma cerca de madeira, ilustrando o transplante de órgãos de porco para humanos.
Imagem: Kenneth Schipper/Unsplash.

Aliás, o paciente tinha 53 anos e já estava clinicamente morto, com a morte cerebral confirmada. Antes de morrer, ele tinha uma doença renal grave e uma forte hemorragia no cérebro.

Então, com a autorização da família, os médicos mantiveram o corpo funcionando por quase cinco dias.

O objetivo nunca tinha sido tentado. Até então, cada transplante desse tipo usava um órgão por vez. Afinal, colocar dois rins e um fígado na mesma cirurgia era território inexplorado.

Mas não é a primeira vez que um porco vira doador. Em 2024, cirurgiões fizeram o primeiro transplante de rim de porco em uma pessoa viva, e outros órgãos já foram testados.

Inclusive, ensaios clínicos com pacientes vivos já correm na China e nos Estados Unidos. No entanto, o que mudou aqui foi fazer tudo de uma vez, na mesma mesa de cirurgia.

Por que cientistas recorrem a órgãos de porco

Porcos em uma granja, criados em fazendas que fornecem órgãos de porco para xenotransplantes.
Imagem: Tom Wieden/Pixabay.

A conta é simples e cruel: falta órgão para transplante. A fila tem muito mais gente do que doadores, e parte dela morre esperando uma chance que nunca chega.

O porco entrou nessa história porque seus órgãos têm tamanho parecido com os nossos. Esse tipo de procedimento, que transfere órgãos de um animal para um humano, se chama xenotransplante.

Mas não dá para pegar um porco qualquer. O doador foi um porco geneticamente modificado, com seis alterações no DNA.

Os cientistas acrescentaram três genes humanos para reduzir o risco de coágulos no sangue. E retiraram outros três genes suínos para o corpo não atacar os órgãos de porco na hora.

As primeiras 24 horas com os órgãos de porco foram um sucesso

Equipe de médicos em uma sala de cirurgia durante uma operação de transplante.
Imagem: sasint/Pixabay.

No começo, deu tudo certo, e melhor do que se esperava. Dezenove horas depois da cirurgia, o fígado de porco começou a produzir bile, o líquido que ajuda a digerir a gordura.

Sinal de que estava trabalhando como um fígado de verdade.

Os rins também responderam. A creatinina e a ureia, dois resíduos que se acumulam no sangue quando os rins falham, despencaram de volta ao normal. Em menos de um dia, os órgãos de porco estavam fazendo o serviço.

Nas primeiras 24 horas, nenhum sinal de rejeição. Para quem acompanhava, parecia que o impossível tinha acontecido.

Depois de 36 horas, o corpo mudou de ideia

A virada veio pouco depois. Por volta de 36 horas, a equipe notou os primeiros sinais de rejeição de órgãos.

As células de porco no fígado e nos rins estavam sendo trocadas, aos poucos, por células humanas. O sistema de defesa do paciente tinha percebido que aqueles órgãos eram estranhos e começou a retomar o terreno.

No fígado suíno surgiram pequenas áreas de tecido morto e de sangue coagulado.

Os pesquisadores têm uma suspeita para o que disparou o ataque: níveis altos de um tipo de célula de defesa ligada à inflamação. Ela pode virar alvo de novos remédios para adiar a rejeição.

A medicina convive com enigmas assim o tempo todo, como o de por que um antidepressivo leva semanas para fazer efeito.

O que essa cirurgia muda para você

Transplantes de vários órgãos de porco não vão virar rotina amanhã. Mesmo com órgãos humanos, juntar dois ou três numa só operação já é arriscado.

Ainda assim, a cirurgia provou que dá para fazer. O procedimento pode ajudar quem está em falência do fígado, que costuma arrastar os rins junto.

E aponta um futuro em que a fila de transplantes pode andar mais rápido para você ou para alguém que você ama.

Os próximos passos são cautelosos: novos testes em pessoas clinicamente mortas e em macacos vivos antes de tentar em pacientes vivos. Falta confirmar que nenhum vírus ou bactéria escondido nos órgãos de porco passe para o corpo humano.

Tem ainda um detalhe que fica na cabeça. O fígado daquele homem de 53 anos estava saudável.

Em vez de ir embora com ele, foi doado e hoje trabalha dentro de outra pessoa, enquanto os órgãos de porco escrevem o primeiro capítulo de uma história que mal começou.

Fonte: Med (Cell Press) | Nature

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