O alho repele mosquito, e ainda age como anticoncepcional natural do inseto

Cientistas testaram 43 frutas e verduras atrás de um afrodisíaco para insetos. Só o alho reagiu, e do jeito oposto: acabando com 100% do acasalamento.
Dentes de alho frescos sobre a mesa, o alho repele mosquito e trava sua reprodução

Imagine servir a insetos um bufê de 43 frutas e verduras, só para ver qual deixa eles no clima para acasalar. Um prato fez o oposto e travou tudo: o alho. Pois é, o alho repele mosquito como ninguém esperava.

A sua avó já dizia que o alho repele mosquito de longe. Mas o que os cientistas mostraram agora é que o bulbo vai muito além de espantar o bicho.

Ele age como um anticoncepcional natural do inseto. Ou seja, corta o acasalamento e a botada de ovos no mesmo golpe. Nem um casalzinho escapou, nem um ovo foi posto.

Dentes de alho frescos sobre a mesa, o alho repele mosquito e trava sua reprodução
O alho, velho conhecido da cozinha, virou arma contra os mosquitos no laboratório. (Imagem: Envato)

Por que o alho repele mosquito (e o cheiro não tem culpa)

A descoberta saiu de um laboratório de Yale que estuda o comportamento reprodutivo dos insetos, com a velha mosca-das-frutas como cobaia.

A aposta era simples. Como essa mosca costuma acasalar em cima da comida, alguém imaginou que algum alimento pudesse servir de afrodisíaco.

Então a equipe bateu 43 purês e montou um bufê de mosca de dar inveja. A ideia era ver qual fruta colocaria os insetos no clima.

Mas não foi bem o que aconteceu. Nenhum prato animou a plateia, e o alho fez o oposto absoluto: zerou o acasalamento. Zero.

A cientista desconfiada que refez o teste inteiro

Achando aquilo bom demais para ser verdade, a cientista foi a outro mercado, comprou os mesmos 43 itens e repetiu tudo. De fato, deu igual, 100% de inibição, com outros bulbos.

Ainda assim, faltava saber o óbvio: a culpa era do cheiro ou do gosto? Quem jura que o alho repele mosquito pelo bafo vai se decepcionar.

A equipe serviu o purê de dois jeitos. Num, o inseto só cheirava. No outro, também provava. O que derruba o clima é o sabor.

O composto que aperta o botão de “pare” no paladar

Separando os químicos do alho, um nome pulou na frente: o dissulfeto de dialila, a mesma substância que tempera comida e entra em suplementos.

Pois ele encosta num sensor de gosto do inseto, o receptor TrpA1. Por exemplo, pense num alarme de “isso faz mal”, a careta involuntária de quem provou leite azedo.

E tem um detalhe. O alarme não para no susto: o contato muda a atividade de vários genes, inclusive um ligado à saciedade.

É aquela moleza de quem almoçou demais e não quer nem ouvir falar em sobremesa. Afinal, de barriga cheia, o inseto perde a vontade de cruzar.

Aliás, o baque é mais forte nas fêmeas. E é pelo paladar, no fim das contas, que o alho repele mosquito sem uma gota de veneno.

O alho repele até o mosquito da dengue, mas trava na vespa

O efeito não fica só na mosca-das-frutas. Logo depois, os cientistas repetiram o teste em moscas tsé-tsé e em dois mosquitos que carregam febre amarela, dengue e zika.

Em todos, o alho afasta mosquito do acasalamento e da postura. Na vespa, porém, nada aconteceu: ela não tem o receptor para levar o golpe.

É aqui que a brincadeira fica séria. Um repelente natural de mosquito que impede o inseto de ter filhos pode virar uma arma barata contra pragas.

Da banca de feira para o próximo inseticida

E o alho cresce em qualquer canto do planeta, barato como poucos temperos. Cultivado há milhares de anos, ele já aparecia até na tumba de Tutancâmon.

Os autores agora veem esse purê de cozinha como ponto de partida para inseticidas mais baratos e mais verdes.

O método, que eles chamam de “phytoscreen”, não tem mistério: purês de alimentos comuns viram um pente-fino atrás de outros compostos que travem pragas.

Se o alho repele mosquito desse jeito, a mesma banca de feira pode esconder o próximo inseticida natural, à espera de quem pense em bater no liquidificador.

Bram Stoker, afinal, estava certo

Tem uma ironia no fim de tudo isso. Em 1897, Bram Stoker já mandava pendurar alho na janela para manter o vampiro do lado de fora.

Mais de cem anos depois, o velho cheiro de cozinha provou que segura mesmo a criatura que vive de sangue, só que de asas e zumbido.

Vai ver o conde sabia de algo que a ciência levou um século para conferir.

Veja também: Todos estavam enganados sobre por que os gatos ronronam

Fonte: Estudo na revista Cell | Universidade Yale

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