Por que os antidepressivos demoram tanto tempo para fazerem efeito?

Quimicamente, o remédio age em um ou dois dias, mas o alívio leva semanas. Um estudo que quase deu errado encontrou a peça que faltava nesse intervalo.
Mosaico de exames de imagem do cérebro em várias cores, ilustrando por que o antidepressivo demora a fazer efeito

Tome um antibiótico e ele age quase na hora. O antidepressivo mexe na química do cérebro em um ou dois dias, mas o alívio só chega semanas depois. Por que o antidepressivo demora a fazer efeito é um enigma antigo.

E a pergunta vale ouro. Pois cerca de um em cada três pacientes não melhora com esse tipo de remédio, e mesmo quem melhora precisa esperar pelo efeito.

E se a espera não fosse um defeito? E se o antidepressivo demora a fazer efeito justamente porque o cérebro precisa de tempo para se reconstruir por dentro?

Mosaico de exames de imagem do cérebro em várias cores, ilustrando por que o antidepressivo demora a fazer efeito
O cérebro visto por dentro, onde as conexões se refazem aos poucos. (Imagem ilustrativa)

O cérebro adulto quase não cria neurônios, mas faz outra coisa

De fato, no adulto, o cérebro quase não fabrica neurônios novos. O que ele faz é abrir ligações novas entre os que já existem, as sinapses, as pontes que conectam um neurônio ao outro.

Aliás, é o mesmo que acontece quando você treina ou aprende algo: o cérebro se rearranja. Esse rearranjo tem nome, neuroplasticidade.

Então a aposta de uma equipe na Dinamarca era simples. Talvez o remédio funcione justamente turbinando essa capacidade de religar fios soltos.

Por muito tempo, contar sinapses num cérebro vivo foi impossível

Mas havia um obstáculo enorme. Medir essas conexões num cérebro vivo não dava: para contar sinapses, era preciso cortar o tecido, o que ninguém faz em gente.

Por volta de 2016, surgiu um marcador radioativo que gruda na proteína das conexões e aparece no exame de imagem chamado PET.

De repente, dava para ver a fiação do cérebro acender numa pessoa acordada. Enfim, era a brecha que faltava para sair dos ratos e ir para os humanos.

O estudo do antidepressivo que quase deu errado

Para testar a ideia, os cientistas juntaram 32 pessoas. Metade tomou escitalopram, o conhecido Lexapro, enquanto a outra metade ficou no placebo, por cerca de um mês.

Por fim, cada uma passou pelo PET, e o marcador acendeu onde havia conexões, desenhando um mapa das sinapses de cada cérebro.

A hipótese era direta: quem tomou o remédio teria mais sinapses que quem tomou placebo. A hipótese estava errada.

No primeiro olhar, nada. Nenhuma diferença clara entre os dois grupos. Parecia um beco sem saída.

A falha que revelou por que o antidepressivo demora a fazer efeito

Aí um detalhe trapalhão salvou tudo. Por questões de agenda, cada exame caiu num dia diferente, de 24 a 35 dias depois da primeira dose.

Isso plantou uma variável nova no estudo: o tempo. E foi olhando para ela que a virada apareceu.

Quem passou mais dias tomando o remédio tinha mais sinapses. No entanto, no grupo do placebo, o tempo não mudava nada.

Ou seja, o remédio vai somando conexões aos poucos, e é essa soma lenta que explica por que o antidepressivo demora a fazer efeito.

O que isso muda para quem sofre

A leitura é até bonita. Se a depressão prende a mente num disco riscado de pensamentos, abrir conexões novas seria uma rota de fuga.

Inclusive, uma cientista compara o efeito a um botão de reiniciar. Para ela, isso ajuda a explicar por que o antidepressivo demora a fazer efeito: o cérebro leva tempo para criar conexões.

Combina com o que já se sabia. A serotonina tira o cérebro do viés negativo na hora, mas esse empurrão sozinho não cura; é preciso somar dias mais positivos.

Mas vale o pé no chão. O estudo foi feito com gente saudável, não com pessoas em depressão, e nelas o remédio costuma mexer bem menos.

Fica um recado prático: mudar a dose ou parar o antidepressivo é decisão para tomar com quem prescreveu, nunca por conta própria.

Ainda há mais de uma explicação na mesa

E nem é a história toda. Outra ideia diz que o cérebro passa semanas só reequilibrando a serotonina, feito um termostato que custa a achar a temperatura.

Há ainda outra pista para por que o antidepressivo demora a fazer efeito: o remédio iria se acumulando na membrana das células até passar de certo ponto.

Entender como os antidepressivos funcionam pode mudar tudo: prever quem vai responder, ou achar mais rápido o remédio para depressão certo, que hoje ainda é meio tentativa e erro.

Talvez o maior recado seja esse: melhorar não é um interruptor que liga de uma vez. É um caminho que o cérebro percorre, conexão por conexão.

Veja também: Cientistas descobrem por que o risco de Alzheimer atinge as mulheres com muito mais força

Fonte: WIRED

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