Numa praia ensolarada do México, a maré trouxe o peixe do fim do mundo, algo que não pertencia àquele cenário. Uma fita prateada gigante, com uma coroa de barbatanas vermelhas, se debatia na areia. E logo adiante, um segundo igual.
Os turistas tentaram devolver ao mar aquele peixe gigante sem saber o que tinham diante dos olhos: o peixe do fim do mundo, uma criatura que quase ninguém vê vivo. Mas o pior é que a aparição dele na praia raramente é boa notícia.
O rei dos arenques que vira serpente do mar
O peixe do fim do mundo tem nome científico, Regalecus glesne,, mas o apelido pegou: peixe do fim do mundo. De fato, ele é o peixe ósseo mais longo do planeta, podendo chegar a 11 metros. Imagine um ônibus urbano inteiro nadando na vertical, e você tem a ideia do tamanho.
Aliás, o corpo não tem escamas. É uma lona lisa que brilha do prateado ao azul, com manchas onduladas que somem assim que o animal morre. Ou seja, fácil entender por que marinheiros antigos juravam ter visto serpentes marinhas nas raras vezes em que ele subia.

O elevador silencioso das profundezas
O peixe do fim do mundo não nada como os outros. Pois em vez de perseguir a presa na horizontal, ele fica de cabeça para cima, parado na vertical, como um elevador em espera no escuro.
Dessa posição, ele espreita as presas que aparecem recortadas contra a pouca luz que desce lá de cima, enquanto o próprio corpo fino some na escuridão. É emboscada pura, montada num bicho de 11 metros.
Mas o cardápio dele desmente o tamanho assustador: apesar do porte de serpente, o peixe do fim do mundo se alimenta de krill, pequenos camarões e lulas minúsculas. Não tem dente de caçador nem apetite de monstro. Isto é, um gigante que vive de comida de passarinho.
Estudar o peixe do fim do mundo é quase impossível. Ninguém mantém um gigante desses num aquário, então a ciência depende de robôs submarinos e de sorte. Por isso, cada vídeo granulado capturado nas profundezas vira ouro para os pesquisadores. Inclusive, até hoje, as imagens de exemplares vivos em seu habitat cabem quase todas numa única mão.
Onde o peixe do fim do mundo realmente vive
Apesar da fama, ele mora no mundo inteiro: dos mares tropicais aos temperados, do Pacífico ao Mediterrâneo, fugindo só das águas geladas dos polos.
A casa dele fica entre 200 e mil metros de profundidade, num andar do oceano chamado zona crepuscular. É o porão do mar: a luz do sol quase não chega, a pressão esmaga e o frio é constante. Para subir até a praia, esse peixe atravessa um abismo que vai contra tudo que o corpo dele pede.
O peixe do fim do mundo que virou profeta de terremoto
E o apelido sinistro, de onde veio? Antes do terremoto e tsunami de 2011 no Japão, vários desses peixes encalharam na costa asiática. A sabedoria popular ligou os pontos na hora: o bicho do fundo do mar estaria sentindo a tragédia antes dos humanos.
A ideia é boa demais para ser verdade, e a ciência pede calma. Os biólogos lembram que a ligação entre os encalhes e os terremotos nunca passou de coincidência anedótica, sem nenhuma comprovação séria. Peixe não prevê desastre.
Um pedido de socorro disfarçado de lenda
A verdade por trás de um encalhe é menos mística e mais triste. Como esse peixe vive protegido nas profundezas, vê-lo se debatendo na superfície quase sempre significa que ele está doente, morrendo ou perdido.
É como se o GPS interno do animal desse pane e o empurrasse para um ambiente que, para ele, é letal. A praia ensolarada que encanta o turista é o fim da linha para o peixe do fim do mundo.
Cada vez que um deles aparece, ganhamos uma janela rara para um mundo que mal conhecemos. O abismo guarda os maiores segredos do planeta, e de vez em quando devolve um deles, morto, para nos lembrar de quanto ainda falta descobrir. outras criaturas e enigmas da natureza.
Fonte: National Geographic Brasil



