Você está no sofá e o gato pula no seu colo. Vem a vibração morna contra a mão e a explicação parece óbvia: felicidade pura. Mas é justo aí que a gente se confunde sobre por que os gatos ronronam.
E se essa vibração não for bem uma decisão do bichano, e sim algo que escapa sozinho, feito um soluço que ninguém controla?
Pois é. Foi essa dúvida que uns cientistas resolveram testar, e o que acharam bagunça tudo o que a gente acha saber sobre por que os gatos ronronam.
A teoria que dizia que o gato ronrona de propósito
Por décadas, a explicação favorita era simples: o cérebro do gato manda, e os músculos da laringe obedecem na hora.
Eles se contrairiam e relaxariam de 25 a 30 vezes por segundo, num tremor rápido feito asa de beija-flor, e dali sairia o ronrom.
Fazia todo sentido. Até um estudo recente jogar uma chave inglesa na ideia que explicava por que os gatos ronronam.
Oito laringes, ar quente e nenhum cérebro
Os cientistas pegaram oito laringes de gatos mortos por doença terminal, com autorização dos donos, e encaixaram cada uma no topo de um tubo.
Depois sopraram ar quente e úmido lá dentro, imitando a respiração. Sem músculo se contraindo, sem nenhum sinal vindo do cérebro.
E aconteceu o inesperado: as oito ronronaram sozinhas, na mesma faixa grave de sempre, entre 25 e 30 hertz.
Para a nossa escala, isso é mais fundo que a nota mais grave de um cantor baixo.
Um corpo de poucos quilos soltando esse grave, a marca do ronronar dos gatos, beira o absurdo. É quase um vozeirão de elefante saindo de um bichinho de colo.
O segredo está numa almofadinha na garganta
E aqui vem o pulo do gato. As pregas vocais do bicho carregam massas de tecido presas ali, quase almofadas.
Essas almofadas conseguem vibrar bem devagar sozinhas, desde que o ar passe na velocidade certa. É a laringe do gato com um “modo vibração” de fábrica.
O princípio é o mesmo da voz humana: o ar passa, as pregas vibram, o som nasce. Ninguém ordena cada vibração quando fala ou canta.
Ou seja, talvez a gente tenha simplificado demais por que os gatos ronronam: menos uma decisão, mais um reflexo do corpo, como respirar.
Nem todo mundo comprou a ideia
Antes de empolgar: o estudo não diz que o gato não tem controle nenhum. Ele mostra que o som pode surgir sem ordem do cérebro.
O mais provável é um meio-termo. Parte automática, com o ar fazendo a almofada vibrar, parte ajustada pelo bicho, que sobe ou abaixa o volume.
E tem quem torça o nariz. Engenheiros que estudam o ronronar apontaram um furo: a laringe foi testada fora do corpo, sozinha.
Para eles, é como tirar o bocal de um trompete e estudar o barulho ignorando o músico e o fôlego.
A laringe isolada mostra como os gatos ronronam em tese, não como o som realmente sai num gato vivo.
O debate continua aberto. E é nesse empurra-empurra que a ciência costuma ser mais honesta consigo mesma.
Afinal, por que os gatos ronronam?
Sobre o mecanismo do ronronar, a poeira ainda não baixou. Mas sobre os motivos, a resposta para por que os gatos ronronam é bem mais firme.
Filhote ronrona para a mãe achar ele no escuro, um GPS sonoro dentro da ninhada. Gato machucado ronrona, e a vibração parece ajudar a cicatrizar osso e tecido, bem naquela faixa grave.
Tem ainda a teoria do bem-estar: a vibração ajudaria a soltar substâncias calmantes, um remedinho caseiro que o gato fabrica e, de quebra, divide com quem está do lado.
E não é só alegria. O gato ronrona estressado, com dor ou no parto: o mesmo somzinho vira pedido de socorro ou suspiro de conforto, conforme a hora.
Talvez seja por isso que o ronronar encante tanto. Embaixo da fofura mora um truquezinho de engenharia que a gente, de cérebro e tudo, ainda não terminou de entender.
Fonte: WIRED




