Quando a gata Chai morreu de repente, aos cinco anos, Kelly Anderson não quis outro gato. Quis aquele gato de volta. E descobriu que existe lugar no mundo disposto a tentar isso por uns 50 mil dólares, o preço de um carro zero.
Ela pagou para clonar seu animal de estimação. Meses depois, nascia Belle, cópia genética exata de Chai. Mesmo DNA, mesma pelagem. E foi aí que a ciência pregou a peça.
Quando dá para clonar seu animal de estimação
Clonar seu animal de estimação deixou de ser ficção científica. A técnica é a mesma que criou a ovelha Dolly em 1996: pega-se o núcleo de uma célula do animal e insere-se num óvulo vazio, que vira embrião e é gerado por uma barriga de aluguel animal.
O resultado é um gêmeo idêntico nascido anos depois, como um irmão atrasado no tempo. A barriga de aluguel, no caso de Belle, foi outra gata que gerou a cópia até o parto. Empresas nos Estados Unidos e na Coreia do Sul já clonaram milhares de cães e gatos para tutores enlutados mundo afora.
Só que copiar o corpo, a ciência consegue. Copiar o bicho que você amava é outra história.

O mesmo hardware, outro software
Pensa no animal como um computador. Os genes são o hardware, a máquina que vem de fábrica. Mas a personalidade é software: instala-se com o uso, com cada susto, cada cheiro, cada brincadeira no quintal.
Na prática de clonar seu animal de estimação, a clonagem copia o hardware perfeitamente. O software, ela não tem como baixar, porque ele foi escrito por uma vida inteira de experiências que não se repetem.
Foi exatamente o que Kelly viu. Quando filhote, Chai adoeceu e passou meses isolada numa quarentena. Aquela solidão forjou uma gata desconfiada e arredia.
Belle, a cópia, cresceu cercada de gente e de estímulo. Virou o oposto: destemida, sociável, dessas que acompanham a dona até o bar. Mesmo DNA, temperamento de outro planeta.
É o velho debate entre natureza e criação resolvido na prática, em cima de um sofá. Os genes entregaram a aparência; a vida entregou a personalidade. E foi a vida que ganhou.
O que a ciência já sabe sobre clonar seu animal de estimação
O caso de quem decide clonar seu animal de estimação raramente é azar. Experimentos com cães e até porcos em miniatura mostram sempre a mesma coisa: clones genéticos desenvolvem personalidades diferentes entre si.
Pesquisadores que estudam comportamento animal resumem assim: os genes dão a matéria-prima, mas o ambiente esculpe quem o bicho vai ser. Pelo mesmo motivo, gêmeos humanos idênticos têm manias, medos e gostos diferentes, mesmo crescendo na mesma casa.
Até a aparência pode trair a expectativa. Em gatos de pelagem malhada, o desenho das manchas se forma ao acaso ainda no útero, então nem sempre o clone sai com o mesmo padrão de cores do original. Às vezes, nem o visual bate cem por cento.
Quem decide clonar seu animal de estimação esperando o reencontro com o velho amigo costuma receber, no fim, um estranho com o rosto conhecido.
O dilema ético que vem junto
Quem vai clonar seu animal de estimação raramente vê a conta que a propaganda esconde. Para nascer um clone, vários óvulos são manipulados e várias fêmeas passam por implantes que nem sempre vão adiante. Sobram animais nesse processo.
Enquanto isso, abrigos do mundo inteiro estão lotados de cães e gatos esperando uma casa. Gastar o preço de um carro para recriar um único bicho, enquanto tantos prontos para amar são sacrificados por falta de espaço, é um nó ético que cada tutor desata sozinho.
O que você ama não cabe num tubo de ensaio
No fundo, quem pensa em clonar seu animal de estimação aprende com a história de Chai e Belle, que traz uma boa notícia disfarçada de frustração. Ela prova que aquele seu cachorro ou gato não é só um código genético repetível.
O jeito único como ele inclina a cabeça quando você fala, a mania de dormir no seu pé, o tempo exato que levou para confiar em você: nada disso está no DNA. Está na história que vocês dois escreveram juntos.
A ciência pode copiar o corpo do seu melhor amigo. A alma dele, só você conheceu, e ela não nasce duas vezes. outros avanços surpreendentes da biologia.
Fonte: National Geographic Brasil



