Imagine uma chuva em que, em vez de água, caem pedras do céu. E, no lugar do mar, um oceano de lava com mais de 100 quilômetros de profundidade.
Pra você ter ideia de quão absurdo é isso, a Fossa das Marianas, o lugar mais fundo do oceano aqui da Terra, tem 11 quilômetros de profundidade, ou seja, é mais de 9 vezes mais profundo.
O vento faria qualquer furacão da Terra parecer uma brisa de fim de tarde. Esse lugar existe e fica a 202 anos-luz de distância da Terra. O K2-141b é um exoplaneta, ou seja, um planeta fora do nosso Sistema Solar que orbita outra estrela. Apesar de assustador e parecer longe demais para ser de nosso interesse, ele é assustadoramente parecido com o nosso planeta.
Uma “super-Terra” onde o ano dura menos de 7 horas
Apesar do clima de pesadelo, o K2-141b é um primo da Terra: um planeta rochoso, parecido em tamanho com o nosso.
A diferença está na massa, cerca de cinco vezes maior. Na prática, a gravidade lá te puxaria com uma força cinco vezes mais forte que a daqui.
E o ano por lá dura menos que seu expediente de trabalho diário: o planeta orbita tão colado na estrela que completa uma volta inteira em menos de sete horas. Daria pra fazer aniversário três vezes num único dia.
A estrela dele também não é como o Sol. É uma anã laranja, menor, mais fria e tão apagada que nem dá pra enxergar daqui. Mesmo assim, de tão perto, ela transforma o planeta num forno.
Um lado em chamas, outro congelado
Apesar de correr em volta da estrela em poucas horas, o K2-141b não gira em torno do próprio eixo como a Terra. Ele mantém sempre o mesmo lado virado pra estrela.
Como resultado, dois terços do planeta vivem num dia infernal que nunca acaba, e o resto, numa noite eterna. E os dois lados não poderiam ser mais diferentes.
No lado iluminado, a temperatura chega a 3.000°C. É mais que o dobro da lava mais quente da Terra, calor de sobra pra derreter e até evaporar pedra.
No lado escuro, a história se inverte: o frio despenca para 200°C negativos e tudo fica congelado feito pedra, sem nem atmosfera pra chamar de sua.

É desse contraste brutal, fornalha de um lado, freezer do outro, que nasce o vento mais louco do planeta.
O ciclo da água, só que feito de pedra
Aqui na Terra, a gente conhece bem o ciclo da água: ela evapora, vira nuvem, chove, volta pros rios e recomeça. No K2-141b é igualzinho, só que no lugar da água é pedra.
No lado em brasa, o calor é tão absurdo que a própria rocha derrete e evapora. Esse vapor de pedra sobe e forma uma atmosfera fininha, feita de mineral no ar.
Aí entra o vento. A diferença monstruosa entre o lado quente e o lado gelado empurra rajadas de até 5.000 km/h, quatro vezes a velocidade do som. Elas arrastam o vapor de rocha para o lado escuro.
Quando esse vapor chega ao frio, ele se condensa e cai. É chuva de pedra, e às vezes até neve de pedra, despencando sobre o oceano de lava lá embaixo. Depois, tudo recomeça.

O que esse inferno tem a ver com a Terra?
Tudo isso parece um pesadelo distante, mas tem a ver com a nossa própria história.
A Terra, lá no comecinho, também foi uma bola de lava derretida, antes de esfriar e virar o mundo de oceanos azuis de hoje.
Olhar pro K2-141b é quase espiar uma foto da Terra recém-nascida, um estágio que o nosso planeta apagou faz bilhões de anos.
Não é um lugar pra morar, brincam os cientistas, mas é perfeito pra estudar o que o universo tem de mais estranho e entender melhor o nosso próprio planeta, que hoje chamamos de azul, mas que no início não era bem assim. E essa foi só a primeira previsão de tempo já feita pra um planeta desses.
Descobertas assim só tendem a crescer com telescópios de nova geração. A safra já chegou: tem até um observatório com a maior câmera já construída fotografando o céu inteiro toda noite.
Então, da próxima vez que reclamar do calor, lembra do K2-141b: lá o céu chove pedra, o mar é de lava e o vento leva pedra no ar como aquela sacolinha de mercado que às vezes você vê flutuando por aí.
Fonte: G1




