Os primeiros remédios criados por IA estão indo para testes em humanos

Um braço do Google DeepMind, premiado com o Nobel, vai levar a humanos as primeiras moléculas desenhadas inteiramente por computador. A promessa é enorme, mas falta um passo decisivo.
Ilustração de moléculas desenhadas por computador, os remédios criados por IA

Descobrir um remédio novo costuma levar mais de dez anos e custar bilhões. Agora, pela primeira vez, remédios criados por IA, desenhados do zero por um computador, estão prestes a ser testados em pessoas de verdade.

Mas quem está à frente não é uma farmacêutica tradicional. É um braço do Google.

Ilustração de moléculas desenhadas por computador, os remédios criados por IA

Do Google para a farmácia

A empresa se chama Isomorphic Labs e nasceu dentro do DeepMind, a divisão de inteligência artificial da dona do Google. De fato, o presidente dela confirmou num evento em Londres que os primeiros remédios criados por IA já têm equipe médica montada para começar os testes clínicos com pacientes.

Aliás, o motor por trás disso ganhou o Prêmio Nobel. Em 2024, os líderes do projeto AlphaFold levaram o Nobel de Química por resolver um enigma que travava a biologia desde os anos 1970.

O enigma que a IA resolveu

Todo ser vivo é feito de proteínas, e o que define a função de cada uma é o formato em que ela se dobra no espaço, como um origami molecular. Mas prever esse formato era quase impossível: o número de dobras possíveis é astronômico.

O AlphaFold mapeou o origami de praticamente todas as 200 milhões de proteínas conhecidas pela ciência. Ou seja, é como ter, de uma vez, a planta de cada peça do corpo humano.

No método antigo, achar essa chave era quase loteria: os cientistas testavam milhares de compostos no laboratório, um a um, na base da tentativa e erro, durante anos. Pois a maioria falhava no meio do caminho.

Com o mapa do AlphaFold, a IA consegue desenhar uma molécula que se encaixa no alvo certo como uma chave na fechadura. Portanto, é daí que vem a promessa dos remédios criados por IA: trocar anos de tentativa e erro por um projeto feito quase sob encomenda. Isto é, o que levava uma década poderia, no futuro, levar uma fração disso.

Por que os remédios criados por IA poderiam ser melhores

No caso dos remédios criados por IA, quando o computador entende o formato exato do alvo, ele projeta o medicamento com pontaria cirúrgica. Na teoria, isso traz três ganhos para o paciente.

Doses menores, porque a molécula acerta o alvo com eficiência. Menos efeitos colaterais, porque ela erra menos outras partes do corpo. E mais potência, porque foi desenhada sob medida para a tarefa.

O dinheiro acompanha a aposta: a Isomorphic levantou 600 milhões de dólares e fechou parceria com gigantes como Eli Lilly e Novartis, mirando primeiro o câncer e as doenças do sistema imune.

Remédios criados por IA: a hora de segurar a empolgação

Aqui vem o freio necessário. Desenhar a molécula no computador é uma coisa; provar que ela cura sem fazer mal num corpo humano é outra, bem mais demorada.

Os testes clínicos existem justamente para isso, e levam anos, mesmo para remédios criados por IA. Nenhum desses remédios criados por IA está aprovado nem disponível; eles estão entrando na fila de validar segurança e eficácia. É um começo promissor, não uma cura na prateleira.

Vale dizer que outras empresas também correm nessa pista, mas ter o Google e um Nobel por trás coloca a Isomorphic na frente do pelotão. A própria missão da empresa dá a medida do tamanho do sonho: resolver todas as doenças com a ajuda dos remédios criados por IA. Pode soar exagero, mas é o tipo de meta que move a ciência. Esse mesmo poder de prever a vida em nível molecular já aparece em outras frentes, como na corrida para destravar o computador quântico.

Se der certo, a maior vencedora será a sua saúde. Por enquanto, o melhor a fazer é torcer e acompanhar, de olhos abertos.

Fonte: Isomorphic Labs | WIRED Health

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