Encontrada placa romana de 2 mil anos com maldição que invoca deuses e demônios contra inimigos

Uma pequena placa de chumbo encontrada sob uma praça guardava nomes, símbolos mágicos e uma invocação escrita em grego há quase 2 mil anos. O objeto mostra que os habitantes do Império Romano também recorriam ao sobrenatural quando queriam acertar as contas com alguém.
Placa romana de maldição de Heerlen, com inscrição grega gravada em chumbo

Uma placa romana de maldição do tamanho aproximado de um cartão de crédito atravessou quase 2 mil anos carregando um recado nada amigável. Gravada em chumbo, ela reúne nomes, símbolos misteriosos e uma convocação a deuses e demônios para interferir na vida de alguém.

O objeto apareceu debaixo de uma praça em Heerlen, nos Países Baixos, onde existia o assentamento romano de Coriovallum. A princípio, parecia apenas uma chapa corroída e coberta por riscos.

Contudo, quando os pesquisadores iluminaram sua superfície de vários ângulos, o metal começou a falar.

Placa romana de maldição de Heerlen, com inscrição grega gravada em chumbo
A placa romana de maldição de Heerlen, com a invocação em grego a deuses e demônios. © Elke Fuchs / Instituto de Papirologia, Universidade de Heidelberg.

O que está escrito na placa romana de maldição?

A inscrição pertence ao século II e aparece em grego antigo, algo bastante raro no norte da Europa romana, onde documentos desse tipo costumavam usar o latim.

O texto invoca divindades e seres sobrenaturais seguindo um estilo associado à magia egípcia. Além das palavras, a peça traz três sinais conhecidos como characteres, símbolos mágicos que provavelmente funcionavam como uma linguagem dirigida aos poderes invisíveis.

Logo depois aparecem quatro nomes. Dois pertencem a homens com nomes latinos, enquanto os outros dois identificam mulheres com nomes gregos. A inscrição se refere a todos como pessoas escravizadas.

Aqui, porém, começa o mistério.

Os estudiosos ainda não sabem se o autor desejava amaldiçoar essas quatro pessoas ou se elas pediram que o feitiço atingisse um inimigo não identificado. Uma das mulheres pode até ter produzido a inscrição, talvez levando consigo tradições mágicas vindas do Egito romano.

Portanto, a placa entrega seus nomes, mas mantém o alvo escondido.

Como funcionavam as maldições romanas?

Tábua de maldição romana de chumbo (defixio) exposta em museu
Tábua de maldição romana (defixio) de chumbo, do mesmo tipo da placa romana de maldição de Heerlen. Imagem ilustrativa: Colchester and Ipswich Museum Service / Ben Paites (CC BY-SA 2.0).

Esses objetos recebem o nome latino de defixiones. Em grego, eram chamados de katadesmoi. Em português simples, funcionavam como bilhetes mágicos preparados para “amarrar” a sorte, a vontade ou as capacidades de outra pessoa.

Quem desejava prejudicar um rival riscava nomes e fórmulas sobre uma folha de chumbo. Depois, dobrava ou enrolava a peça e a enterrava em locais associados ao mundo sobrenatural, como túmulos, poços, templos ou áreas próximas à água.

O chumbo não entrou nessa história por acaso. Além de barato e fácil de riscar, era um metal pesado, frio e escuro. Para quem acreditava no ritual, essas características combinavam com a ideia de prender ou arrastar alguém para baixo.

As razões para amaldiçoar um desafeto também eram muito humanas. Havia feitiços contra rivais amorosos, adversários em processos judiciais, concorrentes nos negócios e oponentes em competições esportivas.

Em outras palavras, a Antiguidade tinha inveja, ciúme, briga de trabalho e torcida rancorosa. Faltavam apenas os comentários nas redes sociais.

Como conseguiram ler a placa romana de maldição?

O chumbo passou séculos enterrado, acumulando desgaste, manchas e pequenos danos. Olhar diretamente para a peça não bastava para distinguir todos os riscos feitos pelo autor.

Por isso, os pesquisadores recorreram à técnica chamada imagem por transformação de refletância, conhecida pela sigla RTI.

O processo fotografa o mesmo objeto várias vezes, sempre mudando a posição da luz. Depois, um programa combina as imagens e permite que o especialista mova digitalmente a iluminação sobre a superfície.

É como segurar uma moeda gasta perto de uma lâmpada e incliná-la até que os detalhes apareçam. A diferença é que o computador faz isso com muito mais precisão e reúne dezenas de ângulos numa única análise.

Assim, marcas que pareciam arranhões aleatórios ganharam contornos. Letras surgiram no relevo, símbolos ficaram mais claros e os nomes voltaram a ser lidos depois de quase dois milênios de silêncio.

Por que havia magia egípcia nos Países Baixos?

Durante o século II, Heerlen fazia parte do Império Romano. Essa enorme rede conectava regiões que hoje pertencem a países muito distantes, desde o norte da Europa até o Egito.

Soldados, comerciantes, trabalhadores e pessoas escravizadas circulavam por essas rotas. Com eles viajavam idiomas, crenças, amuletos, receitas e práticas religiosas.

A placa reúne justamente esse caldeirão. Ela apareceu no norte europeu, foi escrita em grego, traz nomes latinos e gregos e emprega uma forma de invocação ligada ao Egito.

O objeto lembra que o Império Romano não era um bloco cultural uniforme. Era mais parecido com uma estação movimentada, onde tradições diferentes se esbarravam, misturavam-se e seguiam viagem com novas roupas.

Afinal, por que essa descoberta importa?

Ruínas das termas romanas de Coriovallum, em Heerlen, Países Baixos
As termas romanas de Coriovallum, em Heerlen, onde a placa romana de maldição foi desenterrada. Imagem: Romaine (CC0).

Mais de 2 mil placas de maldição romanas já foram identificadas em diferentes regiões do antigo império. Ainda assim, exemplares encontrados nos Países Baixos e na Bélgica são raros. Uma inscrição em grego naquela área é mais incomum ainda.

Além de ampliar o conhecimento sobre rituais antigos, a peça revela emoções que dificilmente aparecem em estátuas de imperadores ou relatos de batalhas. Ela conserva raiva, medo, rivalidade e desejo de vingança de pessoas comuns.

Talvez nunca descubramos quem lançou o feitiço ou quem deveria sofrer suas consequências. Porém, a pequena folha de chumbo já contou algo importante.

Os romanos construíam estradas, aquedutos e cidades monumentais. Mas, quando alguém pisava demais no calo de outra pessoa, havia quem preferisse escrever o nome do desafeto num pedaço de metal e entregar o problema aos deuses.

Mudaram os meios. A vontade de acertar contas, pelo visto, continua assustadoramente familiar.

Fonte: Universidade de Heidelberg | Smithsonian

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