Uma placa romana de maldição do tamanho aproximado de um cartão de crédito atravessou quase 2 mil anos carregando um recado nada amigável. Gravada em chumbo, ela reúne nomes, símbolos misteriosos e uma convocação a deuses e demônios para interferir na vida de alguém.
O objeto apareceu debaixo de uma praça em Heerlen, nos Países Baixos, onde existia o assentamento romano de Coriovallum. A princípio, parecia apenas uma chapa corroída e coberta por riscos.
Contudo, quando os pesquisadores iluminaram sua superfície de vários ângulos, o metal começou a falar.

O que está escrito na placa romana de maldição?
A inscrição pertence ao século II e aparece em grego antigo, algo bastante raro no norte da Europa romana, onde documentos desse tipo costumavam usar o latim.
O texto invoca divindades e seres sobrenaturais seguindo um estilo associado à magia egípcia. Além das palavras, a peça traz três sinais conhecidos como characteres, símbolos mágicos que provavelmente funcionavam como uma linguagem dirigida aos poderes invisíveis.
Logo depois aparecem quatro nomes. Dois pertencem a homens com nomes latinos, enquanto os outros dois identificam mulheres com nomes gregos. A inscrição se refere a todos como pessoas escravizadas.
Aqui, porém, começa o mistério.
Os estudiosos ainda não sabem se o autor desejava amaldiçoar essas quatro pessoas ou se elas pediram que o feitiço atingisse um inimigo não identificado. Uma das mulheres pode até ter produzido a inscrição, talvez levando consigo tradições mágicas vindas do Egito romano.
Portanto, a placa entrega seus nomes, mas mantém o alvo escondido.
Como funcionavam as maldições romanas?

Esses objetos recebem o nome latino de defixiones. Em grego, eram chamados de katadesmoi. Em português simples, funcionavam como bilhetes mágicos preparados para “amarrar” a sorte, a vontade ou as capacidades de outra pessoa.
Quem desejava prejudicar um rival riscava nomes e fórmulas sobre uma folha de chumbo. Depois, dobrava ou enrolava a peça e a enterrava em locais associados ao mundo sobrenatural, como túmulos, poços, templos ou áreas próximas à água.
O chumbo não entrou nessa história por acaso. Além de barato e fácil de riscar, era um metal pesado, frio e escuro. Para quem acreditava no ritual, essas características combinavam com a ideia de prender ou arrastar alguém para baixo.
As razões para amaldiçoar um desafeto também eram muito humanas. Havia feitiços contra rivais amorosos, adversários em processos judiciais, concorrentes nos negócios e oponentes em competições esportivas.
Em outras palavras, a Antiguidade tinha inveja, ciúme, briga de trabalho e torcida rancorosa. Faltavam apenas os comentários nas redes sociais.
Como conseguiram ler a placa romana de maldição?
O chumbo passou séculos enterrado, acumulando desgaste, manchas e pequenos danos. Olhar diretamente para a peça não bastava para distinguir todos os riscos feitos pelo autor.
Por isso, os pesquisadores recorreram à técnica chamada imagem por transformação de refletância, conhecida pela sigla RTI.
O processo fotografa o mesmo objeto várias vezes, sempre mudando a posição da luz. Depois, um programa combina as imagens e permite que o especialista mova digitalmente a iluminação sobre a superfície.
É como segurar uma moeda gasta perto de uma lâmpada e incliná-la até que os detalhes apareçam. A diferença é que o computador faz isso com muito mais precisão e reúne dezenas de ângulos numa única análise.
Assim, marcas que pareciam arranhões aleatórios ganharam contornos. Letras surgiram no relevo, símbolos ficaram mais claros e os nomes voltaram a ser lidos depois de quase dois milênios de silêncio.
Por que havia magia egípcia nos Países Baixos?
Durante o século II, Heerlen fazia parte do Império Romano. Essa enorme rede conectava regiões que hoje pertencem a países muito distantes, desde o norte da Europa até o Egito.
Soldados, comerciantes, trabalhadores e pessoas escravizadas circulavam por essas rotas. Com eles viajavam idiomas, crenças, amuletos, receitas e práticas religiosas.
A placa reúne justamente esse caldeirão. Ela apareceu no norte europeu, foi escrita em grego, traz nomes latinos e gregos e emprega uma forma de invocação ligada ao Egito.
O objeto lembra que o Império Romano não era um bloco cultural uniforme. Era mais parecido com uma estação movimentada, onde tradições diferentes se esbarravam, misturavam-se e seguiam viagem com novas roupas.
Afinal, por que essa descoberta importa?

Mais de 2 mil placas de maldição romanas já foram identificadas em diferentes regiões do antigo império. Ainda assim, exemplares encontrados nos Países Baixos e na Bélgica são raros. Uma inscrição em grego naquela área é mais incomum ainda.
Além de ampliar o conhecimento sobre rituais antigos, a peça revela emoções que dificilmente aparecem em estátuas de imperadores ou relatos de batalhas. Ela conserva raiva, medo, rivalidade e desejo de vingança de pessoas comuns.
Talvez nunca descubramos quem lançou o feitiço ou quem deveria sofrer suas consequências. Porém, a pequena folha de chumbo já contou algo importante.
Os romanos construíam estradas, aquedutos e cidades monumentais. Mas, quando alguém pisava demais no calo de outra pessoa, havia quem preferisse escrever o nome do desafeto num pedaço de metal e entregar o problema aos deuses.
Mudaram os meios. A vontade de acertar contas, pelo visto, continua assustadoramente familiar.
Fonte: Universidade de Heidelberg | Smithsonian



