Mulheres que usam Ozempic e remédios da mesma família desenvolvem 30% menos câncer de mama

A diferença apareceu em 111 mil pacientes acompanhadas na Filadélfia. Os cientistas ainda não sabem se o remédio é a causa, e um ensaio clínico vai tirar a prova.
Ilustração sobre Ozempic e câncer de mama: mão segura uma caneta do remédio, da classe GLP-1

Milhões de pessoas usam canetas como Ozempic, Wegovy e Mounjaro para perder peso ou controlar o diabetes. Um grupo de pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, resolveu investigar uma relação inesperada entre Ozempic e câncer de mama.

A resposta veio dos prontuários, e chamou atenção. Entre as mulheres que usavam esses remédios, os diagnósticos de câncer de mama foram cerca de 30% menos frequentes do que entre as que nunca usaram.

Os prontuários de 111 mil mulheres contaram uma história inesperada

A equipe analisou os registros eletrônicos de 111.646 mulheres de 45 a 80 anos atendidas na rede Penn Medicine, na Filadélfia, entre janeiro de 2022 e junho de 2025. Todas tinham IMC a partir de 25, o limiar do sobrepeso, e haviam passado por exames de imagem da mama.

Dentro desse grupo, 15.264 mulheres tinham prescrição de remédios da classe GLP-1, a família do Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound. As outras 96 mil nunca tinham usado.

No grupo completo, as usuárias tiveram 35,1% menos chance de desenvolver câncer de mama. Os cientistas então refinaram a comparação, pareando cada usuária com uma não usuária de mesma idade, raça, IMC, densidade mamária e situação de diabetes. A vantagem continuou: 30,5% menos chance entre as 30.528 mulheres comparadas lado a lado.

Os resultados foram apresentados no encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, o maior congresso de câncer do mundo, e publicados na revista científica JCO Oncology Practice em junho de 2026. O financiamento veio do Colégio Americano de Radiologia, de uma coalizão contra o câncer de mama da Pensilvânia e do centro oncológico da própria universidade.

Três suspeitos explicam a proteção, e o emagrecimento é só um deles

A explicação mais óbvia passa pela balança. O excesso de peso, principalmente depois da menopausa, é um fator de risco conhecido para o câncer de mama. Um remédio que ajuda a emagrecer atacaria o problema pela raiz.

Mas os pesquisadores suspeitam que a história é maior. Os GLP-1 também reduzem a inflamação crônica de baixo grau, aquele estado de alerta silencioso do corpo que há décadas é apontado como possível combustível para tumores.

Existe ainda um terceiro caminho. Esses medicamentos mexem com o metabolismo e com processos epigenéticos, os interruptores que ligam e desligam a atividade dos genes. A hipótese atual é que os três efeitos somados dificultam o nascimento do tumor.

A radiologista Elizabeth McDonald, que liderou o trabalho, resume o fascínio dos cientistas: esses remédios não foram desenhados para tratar câncer, mas afetam muitos alvos e caminhos ligados ao desenvolvimento da doença.

O que ainda não está provado sobre Ozempic e câncer de mama

A relação entre Ozempic e câncer de mama ainda é uma associação, não uma prova. O estudo é observacional: mostra que duas coisas andam juntas, não que uma causa a outra. Mulheres que usam esses remédios podem se cuidar mais, fazer mais exames ou ter um perfil de saúde diferente, e isso bastaria para distorcer a conta, como a ciência já viu no caso do ovo e do colesterol.

A própria McDonald freia o entusiasmo. Segundo ela, o trabalho não confirma a relação de forma definitiva, mas reforça que vale investigar esses medicamentos como ferramenta de prevenção.

A pesquisa também não separou qual remédio cada mulher usava, por quanto tempo, nem levou em conta o risco genético de cada uma.

O teste de verdade começa agora

Quem tem risco alto de câncer de mama convive hoje com um cardápio curto de opções além do rastreamento. A cirurgia preventiva fica reservada a casos de mutações genéticas. O tamoxifeno funciona, mas muitas pacientes desistem por causa dos efeitos colaterais.

É aí que mora o interesse. Os GLP-1 já são usados por milhões de pessoas, com efeitos conhecidos pela medicina. A equipe da Pensilvânia agora monta um ensaio clínico em vários centros para testar os remédios em mulheres de alto risco, incluindo quem já enfrentou a doença.

Se o efeito se confirmar nessa nova etapa, um remédio criado para o diabetes acabaria virando uma das ferramentas mais acessíveis contra o câncer mais comum entre as mulheres no mundo. A resposta começa a ser escrita agora, em consultórios espalhados pelos Estados Unidos.

Fonte: Penn Medicine | JCO Oncology Practice

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