Como os astronautas conseguem saber a que velocidade estão se deslocando?

A Estação Espacial corre a 28 mil km/h, mas lá dentro ninguém sente nada. Sem velocímetro, sem vento e sem GPS, a resposta vem de três truques de física.
Astronauta em caminhada espacial fora da Estação Espacial, com a Terra ao fundo

Como os astronautas sabem que voam a 28 mil quilômetros por hora? A Estação Espacial Internacional cruza o céu nessa velocidade absurda. Nessa marcha, o trajeto de São Paulo ao Rio de Janeiro dura menos de um minuto. Mas aí vem o detalhe que bagunça a cabeça: lá dentro, nenhum astronauta sente absolutamente nada.

Ou seja, são 16 voltas na Terra por dia, uma a cada 90 minutos. Dá 16 nasceres do sol entre um café e outro. E mesmo assim, sem árvore passando pela janela, sem vento no rosto, sem velocímetro no painel. Então como os astronautas sabem?

Como os astronautas encaram o vazio sem referência

Aqui na Terra, é fácil. Por exemplo, o carro conta quantas voltas o pneu dá por segundo. O avião mede a passagem do ar pelas asas e confere o GPS. Mas no espaço profundo não existe nada disso: nem chão, nem ar, nem sinal de satélite apontando o caminho.

Afinal, errar não é opção. Numa viagem a Marte, aliás, calcular mal significa passar reto pelo planeta e se perder por milhões de quilômetros. Portanto, sem dominar a velocidade no espaço, não há chegada.

Um dos astronautas em caminhada espacial fora da Estação Espacial, com a Terra ao fundo
Imagem: astronauta em caminhada espacial, com a Terra ao fundo. NASA (domínio público).

Tudo depende de onde você olha

Pensa numa bicicleta ergométrica no convés de um navio. O painel marca 15 km/h, mas o navio navega a 30. Qual é a sua velocidade verdadeira? Pois depende do referencial: em relação ao navio, uma; em relação ao mar, outra.

No universo é igual, só que sem porto. Isto é, não existe ponto parado para servir de régua. Uma nave rumo à Lua usa a Terra como referência na partida, mas na hora do pouso precisa trocar a régua pela superfície lunar. Toda velocidade no espaço é medida em relação a alguma coisa.

Como os astronautas usam o truque da sirene

Veja como os astronautas resolvem isso com um fenômeno que você conhece da rua: o som da sirene fica agudo quando a ambulância se aproxima e grave quando se afasta. É o efeito Doppler.

As antenas na Terra mandam um sinal de rádio para a nave. Quando o sinal volta, a frequência chega levemente esticada ou comprimida, dependendo do movimento. Então, medindo essa diferença minúscula, o controle da missão calcula a velocidade no espaço com precisão impressionante.

Foi assim que a NASA, e como os astronautas em órbita, acompanhou as sondas Voyager até os limites do Sistema Solar. Hoje elas estão a mais de 20 bilhões de quilômetros de casa, e a régua continua sendo a mesma onda de rádio. Inclusive, a astronomia usa o truque com a luz: objeto se aproximando puxa para o azul, objeto fugindo puxa para o vermelho.

O banco do carona e as câmeras de bordo

O segundo jeito de como os astronautas medem tudo mora no próprio corpo. De olhos fechados num carro em movimento constante, você não sente velocidade nenhuma. Mas se o motorista pisar fundo, suas costas afundam no banco. De fato, a gente não sente velocidade; sente aceleração.

As naves carregam giroscópios e acelerômetros supersensíveis que registram cada puxão e cada freada desde o lançamento. Assim, somando tudo, o computador de bordo sabe a velocidade atual. O método acumula pequenos erros com o tempo, por isso pede recalibração de tempos em tempos.

Por fim, o terceiro caminho são as câmeras. As estrelas ficam longe demais para servir de marco, parecem pregadas no céu. A solução é fotografar vizinhos próximos, planetas e luas de posição conhecida, e triangular. Comparando fotos tiradas em momentos diferentes, o computador descobre quanto andou e em quanto tempo. Distância dividida pelo tempo: a velocidade no espaço aparece no fim da conta.

A régua invisível que segura a viagem

Cada método mostra como os astronautas conferem um número com o outro. Quando os números batem, a missão segue; quando divergem, alguém na sala de controle perde a noite de sono. as descobertas mais estranhas da física moderna.

No fim, medir a velocidade no espaço é um jogo de inteligência contra o vazio: ondas de rádio, molas microscópicas e fotografias fazendo o papel do velocímetro.

Da próxima vez que olhar o painel do carro, lembra que tem gente voando a 28 mil km/h confiando a vida a uma sirene de ambulância invisível. E funciona.

Fonte: NASA/JPL, Basics of Space Flight

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