O filósofo que definiu quando o sexo é moral nunca fez sexo

Immanuel Kant transformou a moral em um teste de lógica e aplicou a régua até na cama. A regra que ele criou no século 18 segue viva nos debates de hoje.
Retrato de Immanuel Kant, o filósofo que criou o imperativo categórico

Immanuel Kant nunca casou, nunca namorou e, ao que tudo indica, morreu sem fazer sexo. Mesmo assim, criou a regra que usamos até hoje pra separar certo e errado, inclusive na cama: o imperativo categórico.

E olha que ele tentou. O filósofo media 1,57m, menos que a média dos brasileiros, e caprichava no visual: colete amarelo e peruca fora de moda.

Quase casou duas vezes. Nas duas, pesou tanto os prós e contras que as noivas cansaram de esperar e casaram com outros. Lógica até no coração.

O teste que você já fez sem saber

Se alguém te perguntar o que é imperativo categórico, responde sem medo. É só um teste de honestidade resumido numa pergunta: e se todo mundo fizesse isso?

Pense em furar fila. Funciona porque só você fura: os outros seguem a regra que você quebrou. Se todo mundo furasse junto, a fila deixaria de existir.

É essa a pegadinha do teste: quando uma atitude se destrói ao virar lei geral, ela é errada.

Parece o “não faça aos outros o que não quer pra você”, mas a regra de ouro tem uma brecha: quem topa ser enganado se acha livre pra enganar. O imperativo categórico tira o gosto pessoal da conta: lógica vale igual pra todos.

Gente não é ferramenta

A segunda parte é ainda mais citada: nunca trate uma pessoa apenas como meio de conseguir o que você quer. Em bom português: gente não é ferramenta, degrau nem atalho.

A gente “usa” o motorista da Uber pra chegar em casa, claro. Mas ele topou, cobrou e pode recusar a corrida. O problema é usar quem não topou nada.

E quando o imperativo categórico chega na cama?

Pra Kant, o desejo é um problema lógico: a atração transforma o outro em objeto de apetite. Sua comparação é cruel de tão boa: a pessoa desejada na maioria dos casos vira um limão, chupado e jogado fora.

A saída que ele encontrou define quando o sexo é moral: só quando os dois se entregam por inteiro e por igual, sem ninguém virar instrumento de prazer do outro.

Já o casamento, ele definia assim: “a união de duas pessoas de sexos diferentes para a posse vitalícia recíproca dos atributos sexuais”. Tradução: um contrato de exclusividade. Romântico como uma planilha.

Nem tudo envelheceu bem: ele também condenava a masturbação e a homossexualidade, ideias que ficaram no século dele. Já o limão segue rendendo debate sobre consentimento até hoje.

A régua que sobreviveu ao dono

Dois séculos e meio depois, a ética de Kant segue entre as grandes escolas da moral, ao lado do utilitarismo, a rival que mede o certo pelo resultado.

Parte da fama veio de carona: a moral dele combinava com o cristianismo, a mesma tradição que pintou anjos bem diferentes dos que você imagina.

O imperativo categórico nasceu em 1785, Brasil ainda colônia, e segue rodando na cabeça de quem trava numa escolha duvidosa.

Fica a cena: um solteirão de 1,57 metro e peruca antiquada, que perdeu duas noivas por excesso de análise e nunca testou a própria teoria.

A regra dele segue separando o certo do errado. Até na cama dos outros.

Fonte: Psychology Today | Stanford Encyclopedia of Philosophy

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