Todo brasileiro aprende que Dom Pedro gritou às margens do Ipiranga. Quase ninguém aprende que ele morreu do outro lado do oceano e que o corpo de Dom Pedro nunca voltou inteiro.
Uma metade do corpo de Dom Pedro está numa cripta em São Paulo. A outra está a nove mil quilômetros dali, num pote de vidro com formol. Afinal, ninguém fez isso contra a vontade dele.

O pedido que partiu o corpo de Dom Pedro em dois
Em 23 de setembro de 1834, num quarto do Palácio de Queluz, um homem de 35 anos ditava as últimas vontades. A tuberculose o mataria no dia seguinte.
Ele não repartiu joias. Repartiu a si mesmo: “Deixo o meu coração à heroica Cidade do Porto, teatro da minha verdadeira glória, e o resto dos meus despojos mortais à Cidade de Lisboa.”
Uma cidade ficou com o coração, a outra com o resto. Mas falta explicar por que o Porto valia tanto.
Por que o coração foi parar no Porto
Depois de abdicar do trono brasileiro, ele voltou a Portugal para disputar a coroa com o irmão, Miguel. Virou guerra civil, então escolheu o Porto como quartel.
Entre 1832 e 1833 a cidade passou meses cercada pelo exército do irmão, com fome e bombardeio, mas não entregou o rei. Quando ele escreve “teatro da minha verdadeira glória”, fala daqueles meses.
Logo depois, em 1835, o órgão chegou ao Porto e nunca mais saiu de lá. Só sairia uma vez, quase dois séculos depois, e você vai entender por quê.
O corpo de Dom Pedro levou 140 anos para voltar
O cadáver foi para o túmulo da família real, em Lisboa, e ficou lá quase 140 anos. Então, em 1972, nos 150 anos da independência, o Brasil trouxe os ossos.
Hoje o corpo de Dom Pedro descansa na cripta do Monumento à Independência, ao lado de Maria Leopoldina. Mas quando abriram o caixão para exames, em 2012, acharam as costelas cortadas.
Ou seja, a marca da faca que tirou o coração de Dom Pedro continua lá, gravada no esqueleto.
O dia em que o coração atravessou o Atlântico
A exceção veio em 2022. Quem teve a ideia foi a médica Nise Yamaguchi, e quem levou o pedido ao Porto foi o deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança, da família imperial.
A Câmara do Porto acabou topando o empréstimo. Assim, em 23 de agosto de 2022, o pote desembarcou em Brasília para as comemorações do bicentenário da independência.
O então presidente Jair Bolsonaro recebeu a relíquia com honras de Estado e espetáculo aéreo. Depois passou pelo Rio e voltou a Portugal em 9 de setembro.
Mas a viagem rendeu críticas, por custar dinheiro público e contrariar o que ele mesmo escreveu. Os exames aqui ainda mostraram o coração inchado, provavelmente pelo líquido usado antes do formol.
As cinco chaves que separam você do coração dele

Se você for ao Porto hoje, porém, não vai ver nada. O pote fica num sarcófago da Igreja da Lapa, trancado a cinco chaves.
Uma delas mora na gaveta do presidente da Câmara. Abrir aquilo exige seis pessoas, pois cada abertura arrisca danificar a relíquia.
Em setembro de 2026, contudo, a Câmara do Porto pôs em votação uma verba de 2.550 euros para consertar o teto e voltar a mostrar o coração.
Enfim, o corpo de Dom Pedro continua rachado entre dois países. E foi ele quem assinou a divisão, na véspera de morrer.
Veja também: A mulher que governava o Brasil cinco dias antes do grito
Fonte: Euronews | Agenda Cultural do Porto



