Dom Pedro mandou dividir o próprio corpo, e o Brasil ficou só com uma metade

Antes de morrer em Portugal, Dom Pedro ditou que o coração ficasse numa cidade e o resto em outra. Duzentos anos depois, as duas metades seguem separadas.
Urna com metade do corpo de Dom Pedro, na chegada ao Brasil em 2022

Todo brasileiro aprende que Dom Pedro gritou às margens do Ipiranga. Quase ninguém aprende que ele morreu do outro lado do oceano e que o corpo de Dom Pedro nunca voltou inteiro.

Uma metade do corpo de Dom Pedro está numa cripta em São Paulo. A outra está a nove mil quilômetros dali, num pote de vidro com formol. Afinal, ninguém fez isso contra a vontade dele.

Urna com metade do corpo de Dom Pedro, na chegada ao Brasil em 2022
Imagem: Ministério da Defesa (CC BY 2.0).

O pedido que partiu o corpo de Dom Pedro em dois

Em 23 de setembro de 1834, num quarto do Palácio de Queluz, um homem de 35 anos ditava as últimas vontades. A tuberculose o mataria no dia seguinte.

Ele não repartiu joias. Repartiu a si mesmo: “Deixo o meu coração à heroica Cidade do Porto, teatro da minha verdadeira glória, e o resto dos meus despojos mortais à Cidade de Lisboa.”

Uma cidade ficou com o coração, a outra com o resto. Mas falta explicar por que o Porto valia tanto.

Por que o coração foi parar no Porto

Depois de abdicar do trono brasileiro, ele voltou a Portugal para disputar a coroa com o irmão, Miguel. Virou guerra civil, então escolheu o Porto como quartel.

Entre 1832 e 1833 a cidade passou meses cercada pelo exército do irmão, com fome e bombardeio, mas não entregou o rei. Quando ele escreve “teatro da minha verdadeira glória”, fala daqueles meses.

Logo depois, em 1835, o órgão chegou ao Porto e nunca mais saiu de lá. Só sairia uma vez, quase dois séculos depois, e você vai entender por quê.

O corpo de Dom Pedro levou 140 anos para voltar

O cadáver foi para o túmulo da família real, em Lisboa, e ficou lá quase 140 anos. Então, em 1972, nos 150 anos da independência, o Brasil trouxe os ossos.

Hoje o corpo de Dom Pedro descansa na cripta do Monumento à Independência, ao lado de Maria Leopoldina. Mas quando abriram o caixão para exames, em 2012, acharam as costelas cortadas.

Ou seja, a marca da faca que tirou o coração de Dom Pedro continua lá, gravada no esqueleto.

O dia em que o coração atravessou o Atlântico

A exceção veio em 2022. Quem teve a ideia foi a médica Nise Yamaguchi, e quem levou o pedido ao Porto foi o deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança, da família imperial.

A Câmara do Porto acabou topando o empréstimo. Assim, em 23 de agosto de 2022, o pote desembarcou em Brasília para as comemorações do bicentenário da independência.

O então presidente Jair Bolsonaro recebeu a relíquia com honras de Estado e espetáculo aéreo. Depois passou pelo Rio e voltou a Portugal em 9 de setembro.

Mas a viagem rendeu críticas, por custar dinheiro público e contrariar o que ele mesmo escreveu. Os exames aqui ainda mostraram o coração inchado, provavelmente pelo líquido usado antes do formol.

As cinco chaves que separam você do coração dele

Jazigo do coração de Dom Pedro na Igreja da Lapa, no Porto
Imagem: António Amen (domínio público).

Se você for ao Porto hoje, porém, não vai ver nada. O pote fica num sarcófago da Igreja da Lapa, trancado a cinco chaves.

Uma delas mora na gaveta do presidente da Câmara. Abrir aquilo exige seis pessoas, pois cada abertura arrisca danificar a relíquia.

Em setembro de 2026, contudo, a Câmara do Porto pôs em votação uma verba de 2.550 euros para consertar o teto e voltar a mostrar o coração.

Enfim, o corpo de Dom Pedro continua rachado entre dois países. E foi ele quem assinou a divisão, na véspera de morrer.

Veja também: A mulher que governava o Brasil cinco dias antes do grito

Fonte: Euronews | Agenda Cultural do Porto

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